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Título: Truculências e Grosserias

Autor: Jair Oliveira

Sempre cresci ouvindo que o Brasil é um país de povo extremamente receptivo, caloroso e afetuoso. Não é muito difícil de aceitar esta afirmação como verdadeira, pois realmente, no geral, o Brasileiro parece sorrir mesmo diante das situações mais áridas e adversas. Talvez pelo simples fato de ser um país tropical com paisagens paradisíacas, futebol multicampeão, música de tradição, carnaval dos mais famosos do mundo, lindas mulheres e etc, o povo Brasileiro tenha ganhado, com méritos, esta análise sempre tão positiva e otimista. Concordo e defendo esta posição, pois também sou Brasileiro com orgulho e gosto de ter esta percepção associada a mim e a meus conterrâneos. Mas tenho de admitir que, sob uma análise um pouquinho mais minuciosa, a realidade não tem se mostrado tão colorida e bela assim entre nossos cidadãos. Tanto para o bem quanto para o mal.

No lado bom, vemos que muita gente agora tem até preferido abandonar este perfil afetuoso e cordial para mostrar indignação mais que justificada perante a tantas e tantas situações erradas e injustas que temos presenciado em nossa sociedade. Sai o folião sempre alegre e submisso e entra o manifestante consciente e de cara amarrada. E a gente sabe que, principalmente neste país, certas coisas que tentamos ganhar com o sorriso, só se resolvem mesmo é no “grito”. Aqui, o abandono do clichê do cidadão feliz e conformado pode, se levado com inteligência e persistência, trazer benefícios inimagináveis para todos que amam e vivem neste país. Assim esperamos…

Já no lado ruim (e assustadoramente ruim), percebo uma sociedade que não se mostra tão afetuosa e receptiva assim quanto se fala, chegando muitas vezes ao extremo oposto disso. Com o avanço das redes sociais e da internet (ou seja, com grande parte da população tendo cada vez mais poder de comunicação nas próprias mãos), notamos um número alarmante de pessoas com posições preconceituosas, intolerantes, grosseiras, desrespeitosas e até mesmo inconvenientes. Muito longe do conceito tradicionalmente atribuído a nós Brasileiros. E pelo simples fato de eu afirmar algo assim, sei que pode aparecer uma porção de gente com pedras na mão dizendo: “Se não gosta, então “vaza” daqui!” ou “Cala a boca, você não merece este país” etc. Como se criticar algo sobre alguém ou algo que se ama fosse extremamente inadmissível ou demonstrasse nada além de desprezo. Muito pelo contrário! Geralmente só melhoramos algo através da crítica ou da análise menos parcial e unilateral dos fatos. Isso sim é ter uma posição passional (de paixão verdadeira, quero dizer). O indivíduo só parte para a cura da enfermidade, quando assume que carrega a doença dentro de si. É mais ou menos assim.

Mas não é nem por isso que decidi escrever este texto. Escrevo pois tenho percebido (e alguns irão concordar comigo) que é assustador o número de comentários preconceituosos e agressivos espalhados pela internet e pelas redes sociais nos dias de hoje. Façam o teste. Visitem qualquer site que tenha matérias ou “posts” abertos a comentários dos internautas. Pode ser qualquer grande portal (como UOL, Globo.com, Terra, IG etc), blogs ou mesmo o Youtube. Tenham a paciência de ler os comentários (sobre qualquer matéria; qualquer mesmo!) e vocês perceberão que muita gente tem um enorme prazer (?) em atacar e cometer as mais repugnantes grosserias com quem nem se conhece. Já vou esclarecendo que não sou nenhum defensor da falsa postura “politicamente correta”, pois inclusive considero o termo paradoxal e hipócrita em boa parte dos casos. Refiro-me aqui à mania, cada vez mais presente em nossa sociedade, de julgar (na maioria das vezes, precipitada e equivocadamente) as atitudes e a vida dos outros, sob uma perspectiva intolerante, odiosa e, em muitos casos, inconsequente. Esportista, artista, ativista, religioso, anônimo, criança, ninguém se livra destes ataques e julgamentos superficiais. De certo que nem todos adotam tal postura e muitos apenas se divertem em “trollar” na rede sem realmente acreditar nas próprias opiniões (o que também é profundamente abominável, a meu ver). Aliás, como já foi dito em um comercial de um certo refrigerante, tento acreditar sempre que “os bons são maioria”. Mas uma pesquisa recente – e muito interessante – perguntou às pessoas se elas se consideravam racistas ou preconceituosas. Diante da questão, a absoluta maioria respondeu que NÃO! Na outra pergunta, a mesma pesquisa quis saber se o entrevistado conhecia alguém racista ou preconceituoso. Mais uma vez, a arrasadora maioria respondeu que SIM! Alguma coisa não soma direito aí. O que dá para concluir é que somos um povo preconceituoso que não se reconhece preconceituoso. Todos nós!! E são vários os tipos de preconceito! Racial, religioso, sexual, social e até mesmo relacionado ao bem estar e ao sucesso do outro. Tenho uma teoria de que a burocracia intensa que sempre mina a auto estima do Brasileiro esteja por trás de muitas de nossas frustrações como sociedade, não permitindo que acreditemos integralmente em nosso próprio sucesso e no do próximo; e sempre tendemos a menosprezar os feitos bem sucedidos dos outros como lance de sorte ou de esperteza. É o “Pesadelo Brasileiro” (em contraste com o “Sonho Americano”). Mas isso é assunto para muitas linhas de outro texto.

Enfim, voltando ao assunto da agressividade virtual, não tinha o costume de acompanhar comentários em sites desde que uma moça (beneficiada, como sempre, pelo “anonimato” que o “nick name” da internet lhe confere) escreveu, ao ler uma “matéria” com minha esposa passeando por um shopping do RJ com nossa filha mais nova (acreditem, também achamos este tipo de “matéria jornalística” completamente sem propósito!), que nossa pequena, de somente 4 meses de vida na época, parecia um morcego e que a miscigenação do casal havia sido culpada por isso (!!!!!!). Isso porque estamos no Brasil, talvez uma das nações mais miscigenadas do planeta!! Deixei de ler comentários (principalmente sobre minha família), mas fui percebendo que o mais comum é haver ataques assim despropositados em quase todo assunto que pinta na internet. Algumas pessoas, simplesmente desperdiçam o belo veículo de comunicação que têm nas mãos para se mostrarem horrivelmente intolerantes e truculentas. Vejam como exemplo mais recente, o que um sujeito escreveu sobre minhas filhas em outra “matéria” da Tania: Pedro Melo ”bota essas meninas pra estudar tania, pq se depender de beleza………..” (click no link para abrir a matéria) Aqui, além do ataque a duas menininhas de 6 e 2 anos de idade, o cara ainda dá um conselho extremamente óbvio e desnecessário. Provavelmente ele não tem filhos para saber que todo pai e toda mãe naturalmente já se preocupam com o bem estar e a educação de seus filhos em primeiro lugar! A beleza física é um conceito relativo, e acredito que ninguém, em sã consciência, tiraria seus filhos da escola para jogar num intensivo em salão de beleza e mesa de cirurgião plástico! Cada uma! Desculpem se me exalto desta forma, mas o cidadão pode me atacar o quanto quiser sem nem me conhecer (já vi gente me julgando de feio, sem talento, oportunista, antipático, irritante e por aí vai). Aliás, sinceramente eu não ligo, pois acho que faz parte da vida pública do artista receber as mais variadas análises do público, mesmo que não muito agradáveis. E, felizmente, muita gente que me conhece pessoalmente e é familiarizada com meu trabalho e minha família, gosta e elogia. E mais interessante ainda, é quando a pessoa me conhece, conhece meu trabalho e me critica. Aí eu tiro bom proveito da crítica. Agora, quando falam levianamente de minhas filhas, que são duas meninas dóceis, lindas e inocentes, e simplesmente não têm nada a ver com a tal “matéria” de fofoca em cima de mim ou da mãe delas, aí a história muda. Vira grosseria vazia que muitas destas pessoas que as fazem, ficam imaginando que não veremos ou não nos incomodaremos com elas. Nós vemos e, em algumas vezes, nos incomodamos sim! Já tive a chance de responder gentil e educadamente a algumas grosserias a mim direcionadas nas redes sociais (twitter e facebook por exemplo) e a resposta foi quase sempre da pessoa se envergonhando de tal conduta, por achar que eu nunca procuraria pelo comentário na qual ela pôs um “hashtag” em meu nome!! Assim como todo artista, político, esportista ou qualquer outra profissão com exposição ao público, a internet e as redes sociais conferiram o mesmo cuidado e a mesma responsabilidade com as palavras aos internautas que se propõem a escrever suas ideias “online”.

Desculpem, não quis me estender tanto com um assunto tão irrelevante, pois sei que muita gente nem pára para ler comentários alheios onde quer que eles estejam. Mas achei pertinente falar sobre isso, pois além de meu incômodo mais particular, sinto que o Brasil muitas vezes não se assume preconceituoso e agressivo (sem contar as abomináveis atitudes do mundo real, que continuam sufocando, aleijando e até matando muitas vidas brilhantes em nome de intolerâncias idiotas) e isso vai camuflando a verdadeira realidade com a qual convivemos todos os dias. O Brasil é sim um país lindo, com um povo maravilhoso, mas ambos precisam de inúmeros ajustes. E não falo isso com grosseria, não. Falo com paixão pela terra em que piso e completa admiração pelo povo a quem me agarro.

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5 Comments

  1. Eugênio Menezes

    Admiramos muito seu trabalho. Sei da importância de todos aqueles que te rodeiam para você fixar no mundo musical e espiritual de nós. Parabéns, você é um grande artista. Eugênio (pai), Rebeca (mãe) e minhas filhas, Yasmin (7 anos) e Valentina (4 anos), nós curtimos e aproveitamos seu som. Valeu e boa sorte sempre!!!

  2. Larissa

    Creio que o grande mal do brasileiro seja a hipocrisia mesmo. Infelizmente é uma coisa que nasce da péssima educação fornecida no país e é alimentada e edificada com planos de governo não – estimulantes, que acabam gerando e cegando a visão e o valor que as pessoas tem sobre a moralidade e solidariedade. A cultura da internet também contribui muito pras críticas acirradas. Os famosos ”revolucionários da poltrona da vovó”, porque é muito fácil apontar críticas de tom agressivo, pra massacrar quem tá do outro lado da tela mesmo. Me parece que com a internet as pessoas passaram à adquirir uma dupla personalidade, porque aqui é permitido que elas dêem sua verdadeira opinião, e demonstrem seus lados e sentimentos mais cruéis sem ter que sujeitar a sua imagem; sem ter uma cara pra sustentar os seus argumentos. São argumentos anônimos e sem dono que surgem na web.
    Cabe à quem se expõe e diferentemente desta grande porcentagem de pessoas, tem coragem de sustentar seus argumentos e mostrar a própria face, estarem realmente preparados pra agressividade, muitas vezes sem sentido, na internet. É preciso saber absorver aquilo que realmente contribui pra sua melhora pessoal.

    Adoro seu trabalho! Grande beijo.

  3. vilma

    oi que prazer poder participar,um pouquinho do seu espaço,lembro de você bem pequeninho no colo de seu pai,com terninho verde aguá no cerete na zona leste,primeiro de maio lembra? até hoje gosto muito, povo pra cantar ta ai, beijos e parabéns pelo sucesso e pela família linda! ha quero ganhar o quit, rs bjs!

  4. haliceh

    Provavelmente o infeliz não conhece nada de genética, nem de ouvir falar. Perdoe o infeliz que certamente não teve a educação que você tem, caso contrário ele não faria o que fez. Que não seja por merecimento, mas por precisão; perdoe-o pois será bom para você. Família feliz costuma causar mais inveja que riqueza material, talento, fama, beleza. Você e sua família já tem tudo, então deem àquele infeliz o perdão e terão ainda mais… terão a generosidade. Felicidades e paz aos seus.

  5. Lucy Santos

    Com suas canções você trouxe sol para a minha vida e luz para o meu caminho. Se eu me perder na estrada sei que não estarei sozinha! Pois terei suas canções a me guiar. Para você a minha gratidão e todo o meu carinho! Obrigado por você existir…

    Amo Você

    Lucy Santos
    Produtora

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